[ASTRONOMIA ATRAVÉS DA JANELA ] – 520 ANOS DE BRASIL: O ASTRÔNOMO DE CABRAL

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[ASTRONOMIA ATRAVÉS DA JANELA ] – 520 ANOS DE BRASIL: O ASTRÔNOMO DE CABRAL

 

Aos 22 dias do mês de abril de 1500, a expedição comandada pelo navegador português Pedro Álvares Cabral, que havia partido de Lisboa,
composta de 9 naus, 3 caravelas e uma naveta de mantimentos finalmente chegava em terra firme, a América. Depois de uma jornada de
44 dias pelo Mar Tenebroso (que era como o Oceano Atlântico era conhecido) a esquadra ancorou em uma localidade nominada de Porto Seguro.
Após 10 dias, a esquadra partiu rumo ao seu destino original, que era Calicute, na Índia, mas a naveta foi mandada de volta a Portugal,
a fim de anunciar a descoberta, levando com ela cartas com as narrativas da nova terra.

 

Esses acontecimentos são bem divulgados e sabidos por todos que tiveram de estudar história nas escolas. Entretanto, o que pouca gente sabe é
que a árdua tarefa de realizar a travessia Lisboa/Ilha de Vera Cruz (primeiro nome dado à terra descoberta) e retornar a ela novamente dependia,
e muito, da Astronomia. Ela era imprescindível para orientar a direção das embarcações durante todo o trajeto.

 

O uso de instrumentos astronômicos para navegação exigia destreza, principalmente para realização de medidas noturnas feitas em alto mar.
A esquadra que saíra de Portugal em 9 de março de 1500 contava, entretanto, com um experiente mensurador dos céus:  o espanhol Joam Faras, astrônomo, cosmógrafo e físico cirurgião (como eram conhecidos os médicos à época) da expedição de Cabral,  também conhecido como Mestre João. Além das medidas para a travessia do Atlântico, foi dele, também, ao  chegarem em Porto Seguro, a responsabilidade de determinar as coordenadas do local do desembarque na terra descoberta. Para tal, Mestre João usou  um método para determinar a  altura do polo celeste a partir da altura do Sol em relação ao horizonte, tomadas em terra, utilizando um instrumento chamado de astrolábio. Segundo suas próprias palavras

 

“… ontem, segunda-feira, que foram 27 de Abril, descemos em terra, eu, e o piloto do capitão-mor e o  piloto de Sancho de Tovar e tomámos a altura do sol ao meio-dia e achámos 56 graus, e a sombra era setentrional, pelo qual, segundo as  regras do astrolábio, julgamos ser afastados da equinocial por 17 graus e por conseguinte ter a altura do Polo Antárctico em 17 graus,  segundo é manifesto na esfera…”

 

Podemos verificar que o valor obtido é bem próximo do obtido atualmente, que é de 16° 21’ 22”.  Esse é um resultado surpreendente, dada a baixa precisão do instrumento utilizado, o que demonstra que ele era  um observador meticuloso e experiente. Mestre João, de quebra, ainda observou cinco estrelas que circundam o polo celeste. A esse  conjunto de estrelas deu o nome de Las Guardas (As Guardas), que ele também se referia como Cruz em sua carta (imagem em anexo).  Posteriormente esse conjunto de estrelas passou a ser conhecido como a constelação do
Cruzeiro do Sul, uma das mais conhecidas constelações em terras brasileiras, sendo, inclusive, representada em nossa bandeira. Essa carta permaneceu desconhecida por mais de 300 anos, até ser descoberta pelo historiador brasileiro Francisco Adolfo de Varnhagen,  sendo publicada pela primeira vez em 1843, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).

 

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Não se esqueça, no dia 01/05 às 20h, #DesligueAsLuzes e viva um mundo melhor e com mais estrelas.

 

Crédito da imagem do Cruzeiro do Sul: fotógrafo Igor Borgo (reproduzida com permissão)
Crédito da carta celeste do Mestre João: Carta do mestre João a D. Manoel I, Wikipedia Commons. Reproduzida em  Luís de Albuquerque (1970) “A navegação astronómica” in A. Cortesão, 1970, editor,  História da Cartografia Portuguesa, Coimbra, vol. 2, p.225-371, (https://en.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Faras#/media/File:Southern_Celestial_Map_of_Mestre_Jo%C3%A3o_Faras_(Labelled).gif)